Arquivo do mês: fevereiro 2011

Google X Apple mais uma vez

Temos mais um gigante na briga da distribuição de conteúdo online. Após o anúncio de assinaturas que a Apple disponibilizou para conteúdos de revistas e jornais através de sua loja de aplicativos, que foi feito juntamente com o The Daily, o onipresente Google resolveu lançar o seu modelo.

A empresa de busca de Mountain View anunciou na Universidade Humboldt o Google One Pass. Estavam presentes representantes de empresas alemãs de mídia, incluindo a gigante Axel Springer, a maior da Alemanha e uma das maiores da Europa. Desde 2009, o Google já vinha planejando uma ferramenta para assinatura de conteúdo, em razão das experiências com o Google News. Agora, o One Pass surge em um momento de roubar território do recém-nascido plano da Apple.

Mas falemos do sistema da casa da maçã antes. A principal reclamação sobre o sistema da Apple foi o preço. A empresa de Cupertino recebe 30% de cada assinatura feita. Em troca, oferece o sistema e a infraestrutura relativos à distribuição de conteúdo e ao pagamento. É um preço alto, mas, em contrapartida, o serviço é bom e tem o respaldo de quem já vendeu mais de 160 milhões de dispositivos com o iOs, além de possuir uma App Store com mais de 60 mil aplicativos nativos para iPad, fora os para iPhone/iPod Touch.

Outra característica do sistema da Apple é que através dele a empresa editora de conteúdo não tem acesso direto à base de dados de assinantes. Estas informações ficam com a própria Apple. Somente se o usuário aceitar, pode fornecer seu nome, email e CEP para a editora. Para marcar presença em mais de um meio, as empresas podem utilizar um sistema de assinaturas através da Web, sem intermédio da App Store, mas, se isto acontecer, este deve ter valor igual ou maior ao da assinatura pela Apple, para não prejudicá-la.

Como era de se esperar, o sistema do Google tem uma face típica: é muito mais aberto. “Com o Google One Pass, as editoras podem manter contato direto com os seus clientes, e dar aos seus leitores acesso a conteúdos digitais através de websites e aplicativos móveis” (tradução livre), diz o post no Blog do Google. Aí já se tem duas diferenças básicas: a possibilidade de transitar entre diferentes plataformas digitais para o consumo do conteúdo, e a conexão direta de dados dos clientes para as empresas de conteúdo, o que acontece hoje em dia em um sistema de assinatura tradicional. Além disso, o percentual que ficará com o Google deve ser de 10%, mais em conta que os 30 da App Store. As transações acontecem através do sistema de compras Google Checkout. A arrancada parece ser forte também: eles não tiveram o buzz de um The Daily, mas o serviço já foi anunciado em sete países: Canadá, França, Alemanha, Itália, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos.

Em um primeiro momento, pelo menos, foi falado apenas de acesso a conteúdos via Web, e não através de aplicativos exclusivos. A companhia aposta assim no poder e na maleabilidade da Web para a distribuição de conteúdos. Não foi anunciado nada específico para o sistema Android, seja para celulares ou tablets, mas as inscrições funcionarão apenas nos dispositivos onde o sistema operacional permita este tipo de transação fora do seu mercado de aplicativos. Ou seja, principalmente o sistema Android.

No que diz respeito à Apple, há um fator importantíssimo que não está sendo questionado: através de seu sistema, ela tem controle não só sobre o valor, mas também sobre o conteúdo ofertado. Como já acontece em sua App Store, não entram aplicativos que possuam conteúdo adulto, nem que façam referência ao sistema Android, além de uma série de restrições. Com relação a conteúdo jornalístico, é importante observar de perto quais consequências estas regras podem trazer às publicações.

Na disputa do modelo de distribuição de conteúdo, cabe ao Google ir contra a enorme base de dados dfe usuários que a Apple já possui na manga e sabe usar. Não é só a facilidade da App Store e o sucesso do iPad que Steve Jobs quer vender às empresas de mídia: é também uma plataforma com 160 milhões de pessoas com seus cartões de créditos registrados, 90 milhões a mais que o PayPal.

A concorrência entre as duas reafirma a tendência de que não será uma plataforma única que nos trará notícias e informações nesta era digital. A coexistência e competição entre plataformas é constante e traz diversas opções para consumir conteúdos.

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Ainda somos muito broadcast

Recentemente, teve lugar uma das maiores festas da publicidade e da audiencia mundiais. Como acontece todo ano, o Superbowl domina as televisões norte-americanas, e muito se pode observar na área da mídia, especialmente a digital.

As estatísticas sobre a movimentação nas mídias digitais já borbulham. De acordo com o Mashable, que cita uma agência de marketing como fonte, as discussões online (levado em conta o período das doze horas subsequentes ao início do jogo) sobre os comerciais que apareceram no intervalo do Super Bowl aumentaram em 9%, em comparação com o ano passado.

O comercial Detroit/Eminem foi o que gerou mais comentários no Twitter, de acordo com o Trendrr, ferramenta de análise de mídias sociais. O Superbowl representou, inclusive, um novo recorde na rede: maior número de tweets por segundo em um evento sportivo. Às 10h07min16seg, próximo ao fim do jogo, foram postados 4064 tweets. Já a rede baseada em localização Foursquare não quis ficar de fora. Pensou em estratégias específicas, como Badges especiais e uma integração com a loja da NFL.

Em meados da década de 90, Nicholas Negroponte antevia as mudanças que as redes de computador trariam à televisão e aos hábitos dos telespectadores. O horário nobre perderia importância e, cada vez mais, cada um faria a sua grade a sua maneira, com as suas preferências ressaltadas, nos horários mais adequados. Aqueles interesses específicos que canais generalistas não atendem, salvo raras vezes, poderiam ser satisfeitos através da Internet. De fato, a Internet modificou muito o modo como assistimos à televisão, e transformações podem ser vistas. Os dados de visualização de vídeo online só crescem. Serviços de locação virtual, como Netflix, fazem sucesso, e o público, principalmente o mais jovem, acaba deixando de lado a televisão tradicional algumas vezes.

Com base nestes padrões, muitos já anunciaram o fim da televisão aberta e das atrações ao estilo broadcast. Mas, como vemos através do Superbowl, o broadcast segue forte. Se pegarmos o exemplo brasileiro, veremos que as novelas globais são temas dos mais discutidos no Twitter e assistidos no YouTube.

A Social Media Week (um dos maiores eventos sobre mídias sociais do mundo, que acontece em diversas cidades simultaneamente incluindo, nesta edição, São Paulo), que se encerrou neste dia 11, trouxe mostras desta influência. Pesquisa da agência de publicidade JWT mostrou que as discussões das mídias sociais são majoritariamente pautadas pela tradicionais. O contrário não é verdadeiro, apesar de as mídias digitais serem um termômetro sobre o que a população está pensando e falando.

Maurício Mota, da empresa de transmedia storytelling Os Alquimistas, defendeu a harmonia entre os diferentes tipos de mídia durante palestra no RBS Debates, na PUCRS, em setembro. Os Alquimistas é uma empresa especializada em contar histórias e entregá-las nas mídias mais apropriadas. O trabalho deles é entender sobre o poder e as propriedades de cada uma, seja um comercial em horário nobre no intervalo do Jornal Nacional ou uma ação no Foursquare em uma região da cidade. Sabem que não é o Twitter nem o Facebook quem vai salvar o mundo, muito menos a televisão aberta. Tudo são mídias, cada um com suas características.

O Superbowl é um ícone do broadcast, do bom e velho “horário nobre” na televisão. A rede faz, sim, com que os usuários possam procurar seus interesses específicos, mas precisamos, além disso, conversar sobre algo em comum. É a sociabilidade do ser humano exposta através da mídia que ele consome. Receber o conteúdo que o resto da sociedade também recebe traz a sensação de comunidade. É interessante observar Twitter e Foursquare, por exemplo, se integrando com estas atrações. Ao observar o futuro das mídias e da sua relação com a Internet, não se deve diminuir o peso das tradicionais (embora uma plataforma possa, sim, extinguir a outra). A palavra é harmonia. Quem entende isto está um passo a frente na acirrada corrida do entretenimento e da mídia.


O caminho dos dados

Faz alguns dias, o cofundador do Facebook Eduardo Saverin e Jawed Karim, cofundador do You Tube, resolveram abrir o bolso para incentivar uma startup chamada Qwiki. O Qwiki é um serviço de visualização de dados que deslumbra ao primeiro olhar. Ele mescla automaticamente textos obtidos na Wikipedia lidos por uma voz gerada digitalmente com fotos de diversas fontes e mapas, se necessário. Tudo com certa interatividade e colocado em um vídeo rápido de assistir e simpático aos olhos. Funciona de modo análogo ao Flipboard, que tem feito sucesso.

O truque do Qwiki é não possuir um servidor para armazenar todas estas informações, mas sim puxar tudo de outros locais. O segredo está na tecnologia de agregar tudo e gerar a narração automática.

O serviço já existia há algum tempo, mas só foi liberado para uso geral na segunda metade de janeiro. Apesar de talvez parecer menos interessante depois que se descobre a fonte dos vídeos, o Qwiki é um embrião muito bem sucedido. Saverin hoje é um investidor de tecnologia no Vale do Silício, ajudando empresas com potencial a crescer e depois lucrando com seu sucesso. Com a experiência que adquiriu com o Facebook, soube divisar uma boa ideia, no meio das tantas que aparecem no mundo do empreendedorismo digital.

“The Information Experience” é um ótimo slogan para o Qwiki, que ainda opera em alfa. O seu achado não é trazer mais conteúdo para um universo já cheio dele, mas sim saber como formatá-lo para os usuários. A visualização de dados é um ramo muito promissor. Saverin percebeu isso, viu no Qwiki uma boa maneira de organizar dados e resolveu investir US$ 8 milhões.

Organizar dados, se formos analisar, está no centro do negócio de ninguém mais, ninguém menos do que o Google. Em todas as áreas da vida digital que a empresa de Mountain View tem presença (e são quase todas as possíveis) ela acaba organizando e sistematizando dados. Indo mais a fundo, o Facebook (com o qual o Qwiki planeja fazer algumas integrações, inclusive) também segue na mesma linha, uma vez que unifica nossa vida social online.

Com uma proposta interessante e uma interface amigável, além de um bom financiamento agora, o Qwiki deve ser observado de perto.


The Daily e o que vem por aí

E finalmente está aí. Nesta quarta-feira, o grupo News Corp., do magnata Ruper Murdoch, fez o lançamento em Nova York do aguardado The Daily, o primeiro jornal a existir exclusivamente para iPad. Nada de distribuição e impressão cara, nem de website. Tudo é acessível através da App Store, onde novas edições podem ser adquiridas com uma assinatura de US$ 0,99 por duas semanas, ou US$ 39,99 por um ano, um preço bem razoável, se comparado a uma assinatura tradicional. É a maior transformação no cenário de mídia online desde que o San José Mercury News colocou seu site no ar, no começo da década de 90, dando início à era da digitalização generalizada dos jornais em páginas da web

O The Daily era aguardado já há alguns meses. Murdoch já havia deixado clara a sua gratidão por Steve Jobs, por este ter mudado totalmente o cenário de mídia com o iPad. De fato, o tablet provou ser um ótimo exemplo de usabilidade e distribuição de conteúdo, ainda mais para a leitura de revistas. A News Corp. ultrapassa mais uma barreira do aparelho agora.

Website do The Daily, com informações gerais do veículo

Uma das críticas que já havia sido feita ao The Daily já foi respondida. Por ser um veículo de acesso exclusivo ao iPad, donos de outros tablets, ou mesmo de smartphones, ficariam de fora? Parece uma estratégia não muito boa, em uma época onde as pessoas usam, cada vez mais, várias plataformas para acessar conteúdo, ao invés de uma só. A empresa, no entanto, já deixou claro que o The Daily estará disponível “em todos os tablets principais”, ou seja, devemos esperar versões para Android (2 e Honeycomb, provavelmente), Playbook, talvez webOS e outros que por ventura surjam.

O conteúdo do jornal (muda a plataforma, mas o nome fica), tem sido criticado. Ao que parece, o conteúdo jornalístico é fraco, muita coisa vem de agência, e há muito destaque para variedades e fofocas. Não importa. O que importa são os paradigmas que o The Daily surje para levantar, quebrar ou reafirmar.

A atualização dele não acontece muito durante o dia. O principal é a edição nova, pela manhã. Uma recente pesquisa sobre hábitos de leituras em diferentes plataformas, feita pelo Read It Later, mostra que se consome conteúdo de formas diferentes em cada um. Bom, até aí, nada de novo. No iPhone, os picos de leitura de conteúdo acontecem às seis da manhã, às nove da manhã e, muito mais expressivamente, entre 17 e 18 horas e entre 20 e 22 horas. Já no que se refere ao iPad se repete o mesmo padrão, mas de forma mais intensa. Há um pequeno aumento nas leituras por volta das seis horas da manhã e, mais tarde, entre 20 e 22 horas, acontece o pico definitivo, com mais do que o dobro de leitura da hora da manhã. O que se conclui é que os usuários de iPad preferem utilizar o aparelho para absorver conteúdo nas horas que lhe são mais confortáveis, notadamente após o jantar, em casa, no conhecido “horário nobre”. O que prever para um jornal que não possui como forte as atualizações constantes e que entrega sua edição nova todo dia pela manhã, como um jornal tradicional? Conteúdo menos temporal é uma saída, mas este não parece ser o foco do Daily, pelo menos em um primeiro momento.

Outra questão interessante foi levantada por Nick Bilton, da área de inovação do NY Times. Atualmente, o download de revistas por iPad acontece de forma lenta, de modo que foi possível para ele colocar uma Wired para baixar, dirigir até a banca mais próxima, comprar a mesma revista, voltar para casa e o download ainda não estava completo. De um modo geral, isto acontece devido ao tamanho dos arquivos, muito elevado. Tendo muito material gráfico, a equipe do The Daily deve tomar cuidado para não disponibilizar arqivos grandes demais, que diminuam o tempo de leitura do jornal, que já não é o maior do mundo. Ainda levantam outra questão, a de que, como verificado através de uma pesquisa da Forrester (empresa de pesquisa em tecnologia e mercado), 49% de donos de tablet leem revistas e jornais nos seus aparelhos, mas não costumam baixá-los. Além disso, um dado que já havia sido observado outras vezes, a maioria dos donos de tablets olha notícias e outras informações via browser.

A experiência do The Daily suscita muitas perguntas. É importante observar não só o que ele traz, mas as experiências que virão depois, o caminho que o jornal abre. Apesar das dúvidas, Murdoch tem a mão boa, e entendeu muito bem de que se trata o conceito do iPad, desde o início.

P.S.: Alguém está postando as edições do The Daily no Tumblr. Como isso vai gravemente contra o copyright do jornal, vejamos quanto tempo dura.


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