Arquivo do mês: março 2011

A computação invisível

 

A Microsoft publicou recentemente um vídeo (postado pelo Tiago Dória) em que o Chefe de Pesquisa e Estratégia, Craig Mundie, fala sobre o trabalho da empresa na área das Natural User Interface (NUI). Hoje, o método como interagimos com equipamentos da informática é através das Graphical User Interfaces (GUI), ou seja, as interfaces gráficas que, através de elementos específicos, nos traduzem a computação e fazem o que queremos. A diferença para a NUI, como o nome demonstra, é que estas elas são mais naturais, se adequam melhor ao ser humano e suas características. É uma evolução que muda totalmente o modo como lidamos com computadores.

No vídeo, aparecem experiêncas que mostram telas que reconhecem objetos externos, ou mesmo gestos humanos. A pesquisa deste tipo de tecnologia já era intenção da Microsoft quando do desenvolvimento da Microsoft Surface, anunciada em maio de 2007, que chegou a gerar bastantes comentários na Internet. Para quem não lembra, trata-se de uma mesa com tela sensível ao toque e a elementos externos, capaz de se sincronizar a câmeras, celulares, e oferecer uma infinidade de possibilidades. Depois do lançamento foi um pouco esquecida, até por conta de seu preço muito elevado, mas o produto já está em 2.0 e recebeu alguns usos interessantes em estabelecimentos comerciais.

Considero dois momentos do vídeo especialmente interessantes. Primeiro, quando Craig afirma que “nos encontramos em um monento que eu acho que pode trazer uma das maiores mudanças na evolução da computação, onde o computador deixa de ser uma ferramenta para se tornar um ajudante, e a interface da computação deixa de ser algo que guiamos para ser algo que é mais como nós”, e depois quando conclui que “a computação está se tornando mais invisível. Não é mais algo que chamamos de computador, mas que chamamos de alguma outra coisa” (tradução minha das duas frases).

Embora a Microsoft seja sempre muito criticada pelas interfaces do Windows, complicadas e não intuitivas, e seja tachada como empresa “quadradona”, é uma das que se preocupa bastante com as possibilidades que a “era pós-pc” pode trazer. O Kinect é um grande exemplo. Partindo do que o Wii faz, elevou a forma de jogar videogame a outro patamar (embora, evidentemente, sem a intenção de substituir os joysticks) e certamente a Microsoft como um todo saberá se aproveitar deste filão.

Em seu já clássico A vida digital, Nicholas Negroponte antevê as mudanças que as interfaces gráficas sofreriam ao longo de tempo, e como a computação passaria a ter um caráter mais humano. Ele percebeu como isso pode ser uma grande barreira para disseminar as possibilidades do digital, e como seria um passo lógico, após uma época em que o relacionamento entre humanos e computadores não parecia nada natural.

Do outro lado do Vale do Silício, a Apple também está muito interessada em investir na evolução do computador pessoal como o conhecemos hoje. O próprio iPad é um exemplo concreto, com uma interface extremamente amigável e um modo diferente de interação. Durante o anúncio do MacBook Air, Steve Jobs já deu interrogações em todo o mundo: “O que aconteceria se o iPad encontrasse o MacBook?”

Tanto de um lado como de outro, quem ganha é o usuário, e a era pós-pc parece bem mais interessante do que sua antecessora.

* Explicação necessária: os posts têm rareado porque estou com uma tarefa extensa nas mãos: estou resumindo minha monografia inteira em um artigo científico de cerca de 15 páginas. Está ficando bem legal, e colocarei aqui o resultado quando estiver pronto! Dentro em pouco volto a impor um ritmo mais acelerado de postagens no blog.


O morcego no Facebook

O Facebook adicionou nesta quinta-feira um serviço muito interessante: a possibilidade de alugar filmes através de seu site. De forma bem inicial, foi aberto o aluguel para Batman – The Dark Knight, pelo valor de 30 créditos do Facebook (o equivalente a US$ 3). Em uma parceria com a Warner Bros., o filme pode ser ser visto por 48 horas, e o serviço está disponível apenas no Estados Unidos. Não foi anunciado se o Facebook dará ou não origem a um serviço de video on demand, mas esta primeira experiência abre perspectivas.

Nos Estados Unidos, o aluguel digital já é largamente difundido.  A Netflix, maior empresa do gênero, tem valor de mercado de US$ 10 bilhões, e mais de 16 milhões de assinantes (tanto é que a gigante Blockbuster já pediu concordata e agora será vendida nos Estados Unidos). Isso porque é muito fácil e prático alugar filmes online. Se formos pensar, faz todo o sentido, uma vez que o que assistimos são dados digitais. O problema é que, para que eles cheguem até nós, acabamos pegando esses dados e colocando em alguma forma de suporte, como um disco de DVD ou Blu-ray. Mas, se for possível eliminar o intermediário redondo, o processo é mais acessível. Não é preciso ir até a locadora ou esperar que um motoboy traga os preciosos bits pelo trânsito caótico. Bits são mais práticos que átomos. Lembrando que as possibilidades para assistir filmes por aluguel digital são através do computador via streaming, o que é fácil, ou na TV, se o aparelho tiver conexão à Internet (o que é fácil e prático também, só menos usual).

No Brasil, ainda não existem muitas opções neste sentido. A Saraiva e a NetMovies oferecem aluguel digital em várias plataformas, mas, que eu saiba, ainda não são muito procuradas.

Claro, aquela ida na locadora no sábado para ficar percorrendo as prateleiras e escolhendo filmes também tem um grande apelo, e é difícil imaginar que isso vá sumir. O que tudo indica é que, com a popularização do video on demand e das televisões conectadas à Internet, as locadoras verão seu mercado diminuir. Mas, se isto acontecer, é sinal de que surgiu uma opção mais barata e prática. Se os usuários se voltaram coletivamente para outra forma de ter seus filmes, é por que há vantagens, não só porque é novidade.

De qualquer forma, é interessante notar que a disponibilização deste serviço no Facebook mostra como o site sabe explorar e monetizar a larga base de usuários que possui . Além disso, evidencia a onipresença do site na difusão de conteúdos (o botão Curtir é uma amostra do alcance da rede). A partir de agora, deve-se verificar mais experiências como esta. A Warner é a primeira a testar, mas, se der certo, os outros grandes estúdios irão atrás, querendo aproveitar uma audiência massiva disposta a pagar pelos filmes e que já está fidelizada à plataforma.

*Atualização: A Warner Bros. adicionou neste final de semana mais cinco títulos para aluguel online no Facebook. São eles: Harry Potter e a Pedra Filosofal, Harry Potter e a Câmara Secreta, A Origem, Zé Colmeia – O filme e Juntos pelo acaso. Pelo visto, a experiência está dando certo.


Redes (só) da democracia?

O caderno Cultura da Zero Hora do do dia 28 de fevereiro traz uma boa entrevista com Ken Doctor, estudioso de jornalismo e mídia digital. Doctor presta consultoria e é um dos pesquisadores mais conceituados na área atualmente. É autor do livro Newsonomics, um guia para o universo das transformações das notícias no mundo digital, do blog homônimo e de uma coluna semanal no Nieman Lab, laboratório de jornalismo de Harvard.

Uma das perguntas feitas a Doctor trata sobre o papel de redes como Facebook e Twitter nos últimos conflitos e revoluções na África e no Oriente Médio. O pesquisador é enfático e enaltece a importância destes serviços em situações de conflito, especialmente contra governos ditatoriais. Elas dariam, assim, uma oportunidade de voz alternativa aos povos, contra a censura.

De fato, é uma visão bonita, e muito comum hoje em dia. Recentemente, o jornalista Tiago Dória publicou em seu blog um post exatamente sobre esta tendência de exaltar em demasia o valor democrático destas redes sociais, e creditar à elas muitas revoltas e conflitos que têm ocorrido recentemente. Dória fala principalmente com base no livro The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom, de Evgeny Morozov. O texto do blog pode ser lido na íntegra no link acima, mas coloco aqui um breve trecho:

Segundo Morozov, nossa noção de censura na internet ainda tem como base a ideia de “bloquear/não bloquear”, lógica que, a rigor, não faz mais sentido hoje em dia. Cada vez mais, governos como os da China, Irã e Síria estão respondendo à internet de maneira diferente, utilizando-a em seu favor, para fortalecer os seus governos.

O que impede um governo de utilizar Facebook ou Twitter para espalhar boatos elogiosos a si mesmos, ou desacreditar manifestações e opiniões em contrário? Da mesma forma, é possível investigar e vigiar revoltosos e manifestantes através da rede. É uma questão de saber utilizar uma ferramenta. Não se pode perder de vista que a Internet é uma ferramenta, e uma das mais poderosas já inventadas. Como tal, pode receber diversos usos. Deve-se tomar cuidado com afirmações que endeusem o papel revolucionário (para qualquer fim) de redes sociais na sociedade.

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Como explica Pedro Dória em seu blog, sim, a Internet tem um papel importante contra revoluções, e a do Egito foi calcada nela. Muitas vezes, a rede acaba sendo o único (ou o melhor) modo de espalhar informações, e pode se tornar devastadora. Tudo, no entanto, são contextos. O contexto egípcio, de uma ditadura que não entendia as propriedades e possibilidades online, permitiu uma reação rápida e inigualável através dela. Se dedicarmos todo o episódio apenas à tecnologia, caímos em determinismo tecnológico. Retirar todo o pano de fundo econômico e social de uma revolução, por exemplo, também é simplificar bastante.

Já ouvi frases como “mas antes não havia Twitter!” sobre porque realizar manifestações atualmente é mais fácil. Sim e não. Espalhar informações desta forma é realmente mais acessível, mas quanto disso vinga? Quantos usuários não retuítam mensagens e já sentem que fizeram sua parte, seja qual for o objetivo? Quantos realmente o consideram importante e pararíam suas vidas para manifestar-se sobre ele? No final das contas, ainda se lida com humanos.

Em meados de 2009, o Twitter foi aclamado como forte motor dos protestos no Irã, em razão das eleições presidenciais no país. Sugeriu-se até que o site recebesse o Nobel da Paz. Hamid Tehrani, um dos editores do blog internacional Global Voices, relativizou a importância do Twitter, e disse que seu potencial foi “supervalorizado”. Ele argumenta que muito do que a mídia ocidental exaltava era apenas a própria tecnologia ocidental, e não o povo iraniano. Tehrani, no entanto, faz questão de ressaltar que o Facebook e, principalmente, o YouTube tiveram importância nos protestos, este último através da divulgação de vídeos, que tornaram possível ao mundo ver o que acontecia no Irã. Mas muito das manifestações, explica Tehrani, aconteceram por causa de mensagens SMS. Ele escreveu, inclusive, um ótimo raciocínio sobre o que é verdade e o que não é na influência do Twitter na questão iraniana.

Não se pode, ao mesmo tempo, cair na simplificação de que a Internet, sendo uma ferramenta, é neutra. Nenhuma tecnologia o é, e dizer isto seria o oposto de entrar em determinismo tecnológico, mas algo igualmente errôneo. O imaginário de cada uma é completamente diferente.

A tecnologia traz novas possibilidades para o ser humano, e modifica a vivência dele. Questões complexas e cheias de fatores como guerras e conflitos geralmente envolvem vários lados de uma mesma moeda, e os contextos em que ferramentas e tecnologias estão inseridos influenciam muito os meios, os fins e a consequente experiência humana.

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