Redes (só) da democracia?

O caderno Cultura da Zero Hora do do dia 28 de fevereiro traz uma boa entrevista com Ken Doctor, estudioso de jornalismo e mídia digital. Doctor presta consultoria e é um dos pesquisadores mais conceituados na área atualmente. É autor do livro Newsonomics, um guia para o universo das transformações das notícias no mundo digital, do blog homônimo e de uma coluna semanal no Nieman Lab, laboratório de jornalismo de Harvard.

Uma das perguntas feitas a Doctor trata sobre o papel de redes como Facebook e Twitter nos últimos conflitos e revoluções na África e no Oriente Médio. O pesquisador é enfático e enaltece a importância destes serviços em situações de conflito, especialmente contra governos ditatoriais. Elas dariam, assim, uma oportunidade de voz alternativa aos povos, contra a censura.

De fato, é uma visão bonita, e muito comum hoje em dia. Recentemente, o jornalista Tiago Dória publicou em seu blog um post exatamente sobre esta tendência de exaltar em demasia o valor democrático destas redes sociais, e creditar à elas muitas revoltas e conflitos que têm ocorrido recentemente. Dória fala principalmente com base no livro The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom, de Evgeny Morozov. O texto do blog pode ser lido na íntegra no link acima, mas coloco aqui um breve trecho:

Segundo Morozov, nossa noção de censura na internet ainda tem como base a ideia de “bloquear/não bloquear”, lógica que, a rigor, não faz mais sentido hoje em dia. Cada vez mais, governos como os da China, Irã e Síria estão respondendo à internet de maneira diferente, utilizando-a em seu favor, para fortalecer os seus governos.

O que impede um governo de utilizar Facebook ou Twitter para espalhar boatos elogiosos a si mesmos, ou desacreditar manifestações e opiniões em contrário? Da mesma forma, é possível investigar e vigiar revoltosos e manifestantes através da rede. É uma questão de saber utilizar uma ferramenta. Não se pode perder de vista que a Internet é uma ferramenta, e uma das mais poderosas já inventadas. Como tal, pode receber diversos usos. Deve-se tomar cuidado com afirmações que endeusem o papel revolucionário (para qualquer fim) de redes sociais na sociedade.

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Como explica Pedro Dória em seu blog, sim, a Internet tem um papel importante contra revoluções, e a do Egito foi calcada nela. Muitas vezes, a rede acaba sendo o único (ou o melhor) modo de espalhar informações, e pode se tornar devastadora. Tudo, no entanto, são contextos. O contexto egípcio, de uma ditadura que não entendia as propriedades e possibilidades online, permitiu uma reação rápida e inigualável através dela. Se dedicarmos todo o episódio apenas à tecnologia, caímos em determinismo tecnológico. Retirar todo o pano de fundo econômico e social de uma revolução, por exemplo, também é simplificar bastante.

Já ouvi frases como “mas antes não havia Twitter!” sobre porque realizar manifestações atualmente é mais fácil. Sim e não. Espalhar informações desta forma é realmente mais acessível, mas quanto disso vinga? Quantos usuários não retuítam mensagens e já sentem que fizeram sua parte, seja qual for o objetivo? Quantos realmente o consideram importante e pararíam suas vidas para manifestar-se sobre ele? No final das contas, ainda se lida com humanos.

Em meados de 2009, o Twitter foi aclamado como forte motor dos protestos no Irã, em razão das eleições presidenciais no país. Sugeriu-se até que o site recebesse o Nobel da Paz. Hamid Tehrani, um dos editores do blog internacional Global Voices, relativizou a importância do Twitter, e disse que seu potencial foi “supervalorizado”. Ele argumenta que muito do que a mídia ocidental exaltava era apenas a própria tecnologia ocidental, e não o povo iraniano. Tehrani, no entanto, faz questão de ressaltar que o Facebook e, principalmente, o YouTube tiveram importância nos protestos, este último através da divulgação de vídeos, que tornaram possível ao mundo ver o que acontecia no Irã. Mas muito das manifestações, explica Tehrani, aconteceram por causa de mensagens SMS. Ele escreveu, inclusive, um ótimo raciocínio sobre o que é verdade e o que não é na influência do Twitter na questão iraniana.

Não se pode, ao mesmo tempo, cair na simplificação de que a Internet, sendo uma ferramenta, é neutra. Nenhuma tecnologia o é, e dizer isto seria o oposto de entrar em determinismo tecnológico, mas algo igualmente errôneo. O imaginário de cada uma é completamente diferente.

A tecnologia traz novas possibilidades para o ser humano, e modifica a vivência dele. Questões complexas e cheias de fatores como guerras e conflitos geralmente envolvem vários lados de uma mesma moeda, e os contextos em que ferramentas e tecnologias estão inseridos influenciam muito os meios, os fins e a consequente experiência humana.

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