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O que rolou com Uricchio e Casalegno no Seminário Internacional da Comunicação

Computadores pessoais são máquinas para realizar tarefas, envolvem isolamento e não são próprios para a sociabilidade. Já smartphones envolvem um “novo paradigma da tecnologia móvel”, pois admitem e estimulam interação, são dispositivos para a comunicação e são periféricos, não isolados. Esta distinção fez parte da fala do pesquisador de mídia e tecnologia Federico Casalegno nesta quinta-feira, dia 17, no Seminário Internacional de Comunicação, realizado pela PUCRS e que se encerrou neste dia 18. Casalegno, diretor do Mobile Experience Lab e diretor associado do Design Laboratory da mesma instituição falou juntamente com o colega Willian Uricchio, também pesquisador do MIT e diretor do Comparative Media Studies Program. Ambos abordaram as interações homem-máquina e comentaram algumas iniciativas de pesquisa em comunicação digital.

Mediação do encontro foi do professor Eduardo Pellanda

Federico Casalegno fez um resgate histórico da relação dos povos com a informação. Nas sociedades orais, os atores compartilhavam o mesmo pano de fundo cultural e lugar físico. No entanto, a intenção de guardar informações para melhor disseminá-las já é antiga, e em sociedades pré-colombianas já existiam dispositivos usados para “embedar” e compartilhar histórias. Depois, quando as sociedades mudaram para o paradigma da escrita, as comunidades passaram a ser menos dependentes dos locais físicos, e os fluxos de informação se flexibilizaram, nesse sentido.

Uma das grandes questões que permeiam o trabalho do Mobile Experience Lab, na verdade, é como projetar recursos que proporcionem interação, mas, ao mesmo tempo, também suportem conexões geolocalizadas?

Um dos projetos mais bem-sucedidos a dialogar com esta problemática é o Locast, desenvolvido desde 2009 e que já teve cinco edições, sendo uma delas em Porto Alegre. Trata-se de uma plataforma de publicação e captação de conteúdo, baseada em mobile e na Web, destinada a agrupar conteúdo geolocalizado gerado por usuários, gerando experiências hiperlocais. Casalegno abordou ainda ideias de novas aplicações da plataforma, uma delas envolvendo um mapeamento das memórias da imigração italiana em Boston, o que poderia ser extendido com a comunidade italiana do Rio Grande do Sul.

Outro projeto muito interessante citado pelo pesquisador é a Workshop Internacional de Formação de Treinadores: Ampliando Vozes da Juventude com Tecnologia Geográfica, realizada em Agosto. Em parceria com a Unicef, jovens e adolescentes receberam tecnologia para mapear riscos ambientais e outros pontos de interesse em suas comunidades. Foram utilizados tantos smartphones com GPS para localizar e mapear as áreas, quanto câmeras amarradas a pipas ou balões, para fazer registros aéreos e mostrar os problemas às autoridades.

Estes são dois exemplos bem bacanas de uso de informações geolocalizadas. O Mobile Experience Lab tem um envolvimento muito grande com estudos de uso de mídia cidadã para melhor relacionar as pessoas, além da criação de “camadas de informação” em locais físicos.

William Uricchio tratou de como tecnologias emergentes modificam a forma como representamos o mundo, principalmente na área dos documentários.

De acordo com o Uricchio, que substituiu Henry Jenkins no comando do Comparative Media Studies Program, o documentário é líder na mídia de representação. Sua origem aparece já no início do cinema e da fotografia, ambos essencialmente documentais. Ao juntar a natureza atual do hipertexto com a emergência de um cidadão acostumado a gerar conteúdo a partir de smartphones e outros dispositivos, observa-se uma mudança na ideia de documentário, conforme o pesquisador.

A fala de Uricchio fica muito bem inserida na chamada Cultura da Convergência. Mais do que indicar convergência de mídias e de tecnologias, ela demonstra um posicionamento diferente do público, uma cultura mais ativa, em que os indivíduos se reúnem em torno de conteúdos para disseminá-los e consumi-los socialmente. Além disso, experimentos transmídia como os citados por Uricchio demandam que as pessoas vão atrás das peças de todo o conjunto midiático, para obter uma experiência mais rica. A tendência é que observemos cada vez mais este tipo de estrutura na mídia.

Uricchio cita os documentários que se utilizam de narrativas transmídia como uma das categorias de representação que emergem atualmente. Um projeto bacana que Uricchio cita como exemplo é o Utrecht Interactive. Ele aborda o tratado de Utrecht, prestes a completar aniversário de 300 anos de criação, que regulava questões relativas às colônias da América do Sul e acordava assuntos diplomáticos entre as realezas européias. Ele se utiliza de quatro camadas diferentes de informação, com objetivos diversos, para criar uma experiência completa em torno do conteúdo. Um website que serve de repositório de dados serve de pano de fundo para games e portais de vídeo, com tours interativos na cidade de Utrecht ajudando a levar mais visitantes aos museus. Assim, puderam trazer pontos de vista diferentes, de pessoas e classes diferentes, para públicos diversos sobre um acontecimento que tomou lugar há três séculos.

Outras duas iniciativas destacadas, na linha de documentários colaborativos, são o 18 days in Egypt, que utiliza imagens de mídia cidadã para retratar a última revolta no Egito, e o 8 Billion Lives, que reúne vídeos de curta duração, cada um retratando um dia na vida de alguma pessoa ao redor do mundo. O objetivo é conectar pessoas ao redor do planeta em torno do cotidiano de pessoas comuns, para conhecer as diferenças culturais e disseminar a tolerância.

A fala de Uricchio complementa bem a de Casalegno. Afinal, as iniciativas de documentários transmídia frequentemente envolvem informações geolocalizadas e conteúdos gerados por usuários, questão central para o Mobile Experience Lab. Saber posicionar o conteúdo editorial ao lado do conteúdo participativo, e gerar, no final das contas, uma experiência rica para as pessoas, é um grande desafio que estas pesquisas ajudam a explorar.

Em tempo: eu, a colega Ana Cecília Nunes e o Professor André Pase produzimos um trabalho justamente sobre um documentário transmídia, e o apresentamos no próprio Seminário. Pesquisamos o Inside Disaster, um projeto canadense transmidiático sobre o terremoto que atingiu o Haiti em 2010 e o trabalho humanitário que acontece lá. Assim que acertarmos os últimos detalhes no trabalho, posto ele, ou os slides, por aqui.

*Crédito da foto: Priscila Leal

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Um relatório do fisl12

Terminou neste sábado um dos maiores eventos do mundo relativo à software livre. O fisl, que acontece todo ano em Porto Alegre, no Campus Central da PUCRS, reuniu quase 5 mil pessoas, para assistir a dezenas de palestras relativas à tecnologia livre, cultura livre, código aberto, e tudo o que estiver aí no meio. Neste ano, tive o prazer de participar como voluntário da cobertura do fórum, para a Associação Software Livre. Escrevi várias matérias aqui no site do fisl, mas vou publicá-las aqui no blog, pois as palestras e atrações eram todas muito interessantes.

Expectativa e corredores cheios no começo do fisl
29 de Junho de 2011

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As centenas de atrações do 12º Fórum Internacional Software Livre começaram oficialmente nesta manhã, a partir das 9h. Até o final da tarde deste sábado, o Centro de Eventos da PUCRS, e, por quê não, Porto Alegre mesmo, é palco de um fluxo de informações e debates sobre neutralidade da rede (o tema deste ano) cultura livre, software livre, tecnologia, e tudo o que estiver relacionado.

Mesmo na primeira hora do Fórum, a movimentação é intensa. O público enfrentou o frio de 8 ºC e lotou as palestras iniciais, além de diversos estandes. Em um dos estandes, um software inusitado dá boas vindas a quem entra no evento. O programador e artista plástico Alexandre Rangel, de Brasília, demonstra um programa de edição de vídeo ao vivo. Com o aplicativo, é possível musicar peças de teatro e apresentações com facilidade e diversos recursos, enquanto elas acontecem.

A distância não é um obstáculo pros amantes e usuários do software livre marcarem presença no fisl. O estudante de Ciências da Computação Felipe Luciani veio direto de Maceió, e esta não é a primeira vez: “É o meu terceiro Fórum. Vim também em 2008 e 2009”. Interessado pela área de desenvolvimento Web e especializado na ferramenta Moodle, ele faz parte da organização do 1º Encontro Alagoano de Software Livre. “Encontrei muitos contatos aqui de encontros nordestinos anteriores de software livre, é muito legal. Ainda não consegui ver tudo, é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo”, completa.

Da mesma forma, a presença feminina no Fórum já deixou de ser incomum há muito tempo. Fernanda Diverio, de São Gabriel, é estudante de Sistemas da Informação na Urcamp e participa pela segunda vez do evento. “Me interesso por software livre, acho legal a ideia. Tá massa esse ano, melhor do que no ano passado!”, comemora.

Para quem ainda não fez a incrição, elas podem ser feitas no local, de acordo com a disponibilidade de vagas. Acompanhe a programação para os destaques do dia de hoje e dos próximos.


A liberdade digital e a Cultura

Por falta de tempo, não pude aproveitar tudo o que queria 24º Fórum da Liberdade. Tive a oportunidade de assistir apenas a uma palestra, no entanto, o que acabou valendo bastante a pena. Com o tema Liberdade na Era Digital, o Fórum traz discussões muito interessantes sobre democracia, jornalismo, tendências, empreendedorismo, tudo dentro do meio digital.

Fórum da Liberdade - Liberdade na Era Digital

Cerimônia de abertura do Fórum da Liberdade 2011

A palestra Inovação e Tendências: Olhando o Futuro trouxe ao palco do Centro de Eventos da duas abordagens diversas, mas que se completavam muito bem. Por um lado, havia Carlos Affonso Pereira de Souza, doutor em Direito Civil pela UERJ, é vice-coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, além de conselheiro eleito to NCUC (Non-Commercial Users Constituency). Por outro, Rony Rodrigues, sócio-fundador do Grupo Box 1824, empresa de pesquisa especializada em tendências de comportamento e consumo, e responsável pelo elogiado vídeo We all want to be young. A mediação ficou por conta do comentarista e âncora da Globo News e da CBN Carlos Sardenberg.

Quem iniciou os trabalhos foi Souza. Resumindo muita coisa e com uma boa reconstrução, abordou principalmente as defasagens da Lei de Direito Autoral brasileira.

Souza citou o guru do pensamento livre Lawrence Lessig, que disse que os juristas, ao refletir sobre novas tecnologias, devem pensar principalmente em três fatores:

– A possibilidade de uso lícito que o serviço traz (não apenas o ilícito);

– A existência de meios menos gravosos

– A eficácia da medida (medida contra o serviço/tecnologia)

No Napster, por exemplo, soterrado por decisões judiciais no início da última década, estas questões não foram observadas. O resultado pode ser observado até hoje. Pouco importa que foi fechado, sua experiência mostrou que a distribuição da música estava errada, e que as possibilidades tecnológicas já não combinavam com este cenário.

Após, abordou a iniciativa do Marco Civil da Internet, que destaca a função da Internet como um fórum, com boas perspectivas inclusive para o meio jurídico.

Rony Rodrigues apoiou sua fala na diferença entre as gerações. Tratou sobre a evolução entre elas, com as divergências com relação à privacidade e aos objetivos delas, o que tem sido um assunto muito abordado atualmente e, na minha opinião, supervalorizado às vezes.

O que achei bem interessante que Rodrigues colocou, e algo que tem se observado cada vez mais, é a tendência da ubiquidade tecnológica. Isto é, como a computação está se tornando cada vez mais integrada às nossas vidas, e tudo paulatinamente se interconecta. O potencial de serviços com geolocalização nesse processo é evidente.

O debate entre os dois foi um dos pontos mais produtivos. Affonso defendeu uma mudança na legislação de direito autoral brasileira, mas de uma forma pensada a beneficiar os dois lados. Ele afirmou que a legislaçao deve possibilidar o consumo, mas evitando que os usuários caiam em pirataria.

Ao mesmo tempo em que deve haver acesso à cultura, é necessário incentivo para os seus produtores. São esses fatores que a legislação deve aliar. Não se trata de banir o direito autoral, mas de adequá-lo à realidade atual. Lembrando que, se seguida à risca, a legislação atual proibe passar música de um CD comprado legalmente a um iPod, por exemplo. O Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV RJ, onde Affonso trabalha, tem pesquisas muito interessantes na área. Engraçado notar esta defasagem da Lei considerando que ela é bem recente, de 1998.

O direito autoral é uma questão sempre discutida em fóruns deste gênero, principalmente no Fórum Internacional do Software Livre (que, inclusive, já tem inscrições abertas). O meio artístico vai encontrando formas de se sustentar, mas é necessária uma discussão desta legislação. Como mostrado por Affonso, o Brasil é o sétimo país com direito autoral mais restritivo, o que é algo de que se envergonhar. A Internet oferece possibilidades infinitas à cultura, que, digital ou não, tem como objetivo se difundir.


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